
Projeto marca uma virada pessoal e musical de Marilia Zangrandi, que transforma experiências intensas de vida em um som que mistura rock, metal e fortes camadas emocionais
A artista Marilia Zangrandi inicia uma nova etapa de sua trajetória musical com o projeto Eudoxia, uma proposta que nasce de um período profundo de transformação pessoal e artística. Em entrevista ao Papo Metal, a musicista fala sobre o significado do novo nome, as influências que moldaram sua identidade sonora e os próximos passos dessa fase que une intensidade, sensibilidade e liberdade criativa.
Segundo ela, o surgimento de Eudoxia está diretamente ligado a um processo de autoconhecimento e renovação.
Leia já:
1)Você começou recentemente uma nova fase artística como Eudoxia. O que esse novo nome representa para você e como ele reflete sua evolução musical?
Eu tenho que tomar cuidado para não responder esta pergunta com uma sessão de terapia (risos). Nos últimos anos eu passei por um processo intenso pessoal, que de um lado teve uma depressão instalada, muita ansiedade e fases difíceis; mas por outro, foi cheio de conquistas e feitos importantes para mim. Isso me levou a um novo olhar, a me reconhecer de outra forma e encerraralguns ciclos e deixar algumas coisas para trás.
E comecei a trazer a minha história para mim mesma, o que mudou como eu me enxergo, e aí é natural que surja uma nova identidade. Até que um novo nome surgiu, de uma maneira tão insistente que não teve como ignorar. E isso também se articula com uma necessidade antiga que eu sentia ao longo dos anos, atuando de diferentes formas, fosse em diferentes estilos musicais ou até na locução.
Entre um trabalho e outro, eu estava sempre“trocando o chapeuzinho”, e isso me dava uma sensação ruim de nunca estar inteira no que estava fazendo. E eu não consegui mais sustentar isso na minha visão artística das coisas, senti que era prejuízo ficar vestindo essas roupagens diferentes. Então este novo nome vem também para consolidar estar marca.
Hoje, quem me contrata ou trabalha comigo, entende que está levando umaartista de muitas faces.
2) Seu EP The Shadow Works apresenta três faixas com atmosferas distintas. Qual foi sua principal inspiração ao compor essas músicas e como foi o processo criativo?
Quando eu tomei a decisão de gravar minhas primeiras composições, eu tava decidida a me dar total liberdade artística. Porque eu fiz bastante música já, mas nunca era a minha de fato, tava sempre trabalhando com o terreno ou o estilo que me dessem. E como era meu primeiro trabalho autoral, eu precisava primeiro saber ao certo do que é feito meu som, o que eu trago pro estúdio. Eu acho que às vezes as pessoas ficam “tomando decisões” sobre como elas precisam soar quando nem se deram a chance de se escutar, e eu acho isso um erro; termina apagando tudo de bom que alguém tem para contribuir.
É lógico que eu e meu púbico tínhamos algumas expectativas, mas eu sabia que não era esse o caminho. Vocalmente, eu estava num momento de reformulação técnica, e daí também muitoser na região mais média, porque a voz estava assentando ali e me dando coisas interessantes. Como teríamos apenas uma semana para gravar tudo, não podia ser algo muito extenso, daí 3 faixas. Eu já tinha The Angel e The Song compostas, e foram essas duas canções que me inquietaram para que The Shadow Works existisse.
Eu as escutava na cabeça então soube que tinha que gravá-las. Mas para a terceira faixa, tinha que ser algo diferente das primeiras. O pessoal no estúdio me perguntava qual seria, e eu perguntava se tinham alguma música na gaveta. Eles estavam meio preocupados,mas eu dizia “tem que deixar espaço para Deus” (risos). Mas duas coisas eu sabia dela: ia ser acústica, e também uma canção de amor. Eles me traziam algumas coisas, todas muito boas, mas não me pegavam.
Até que o Gus sentou comigo e foi passando material que ele já tinha composto no violão, até que ele começou a tocar alguns acordes, e quando eu ouvi a melodia já estava pronta. Em um dia eu escrevi a letra, nada nasceu tão rápido das minhas mãos antes! E assim nasceu TheChest, a letra mais rápida que escrevi na vida. Foi assim, umas certezas e boas pitadas de caos.
3)Você já cantou em vários países da Europa e América. Como experiências internacionais influenciaram sua música e sua visão sobre performance ao vivo?
Eu me considero muito sortuda como artista por ter pisados em palcos de rock e também de ópera, porque são dois extremos na relação com o público. E isso é um ponto em comum, você pode fazer o que quiser na música, mas sempre vai ter que honrar seu público, são eles que validam a experiência.
A gente pode se achar muito importante, ou ficar se prendendo demais em critérios técnicos, achando que uma performance só deu certo quando eu consegui trazer tudo que faço nos estudos para o palco, mas a verdade é bem outra.
Quando a gente faz um espetáculo, a gente quer criar uma experiência para as pessoas, algo que quebre a cadência dos dias, que seja um evento para o qual se preparam e voltam renovados, e que termine sendo algo que elas vão guardar pro resto da vida. E este é o nosso papel: tirar as pessoas de casa e deixá-las com a sensação de que não perderam seu tempo.
E nesse sentido acho que a experiência ao vivo é definitiva e insubstituível. É ótimo haver gravações e registros, não me leve a mal, escuto muito. Mas eu acho que isso nuncapode ser maior ou mais relevante do que a experiência da música em primeira mão, como o fenômeno social e acústico que é. Principalmente porque a música é uma criação para o coletivo.
Quando a música nasceu para a humanidade, era ao vivo, era em grupo, era para todos, e não só alguns escolhidos que estavam autorizados a fazer, era uma celebração por termos a dádiva do tempo, e muito de sua força vem disso. Só que hoje consumindo as faixas do streaming com seufone de cancelamento de ruído fica difícil lembrarmos desta parte.
4) Em sua estreia ao vivo recente em São Paulo, o público lotou a casa e a recepção foi muito positiva. Qual foi a sensação de ver essa resposta após tanto trabalho com o projeto?
Olha, já tem um mês desse show e eu ainda tô processando. Como foi o primeiro show inteiramente meu, era um risco que eu estava assumindo, e teve muita gente que disse que eu tava dando um passo errado na carreira. Então estava cheia de medo e me desdobrando em várias funções, cantora, produtora, tesoureira, social media, algumas pela primeira vez. E isso aumentou muito a pressão pramim, cheguei a me perguntar se eu devia desmarcar várias vezes.
Mas além do apoio das pessoas envolvidas, como o próprio Gus mas também a Isa (Miranda, assessora) e a Pity (Portugal, produção); eu me lembrava que estou numa profissão que é tecida através de incertezas, e que se voltasse atrás ia criar um precedente pra mim e pro público terrível.
Eu terminei o processo todo muito cansada, o que é normal, mas também agora que este cansaço está indo embora, eu começo ater mais ânimo para trabalhar, porque o contato que tive com o público foi maravilhoso. A gente fica fazendo as coisas de longe, ou pela internet, e não se dá conta do quanto isso faz falta. Então por mais que haja susto e medo, eu fico concluindo que as coisas são assim mesmo, é nesse mar que a gente tem que navegar.

5)Morando em Lisboa, você também atua como preparadora vocal e produtora. Como concilia esses diferentes papéis com sua carreira artística?Não tão bem quanto eu gostaria (risos) mas venho melhorando.
A verdade é que para construirmos uma carreira na música, a gente várias vezes é forçada a tirar o foco da nossa função e olhar para o todo, e este movimento sempre vai nos levar a assumir diferentes papéis, mas faz parte.
E quanto mais fácil pudermos transitar nestas funções, mais oportunidades somos capazes de construir para nós, e melhor vai ser o nosso trabalho.
6)Você colaborou com artistas como Gus Soularis em algumas composições. Qual foi aimportância dessas parcerias para o seu desenvolvimento musical?
As minhas parcerias definem muito o que sou e como faço música. Algumas das coisas mais legais que fiz até hoje tem a mão ou pelo menos a presença do Gus, então adotei ele como irmão. É dele meu primeiro single, Smoke and Mirros; ele me mandou um arquivo dizendo “escreve a letra para a gente gravar”, e foi aí que eu descobri que podia fazer isso também.
A sonoridade de The ShadowWorks tem muito da identidade dele como produtor e guitarrista, e do Ronaldo de Oliveira como arranjador. Outro que preciso citar é o Fernando Moura, com quem lancei meu primeiro EP, Canções entre Mares, em que escrevi as letras e melodias em cima da música dele.

Fazendo músicacom ele, eu terminei explorando outras possibilidades e me dei a liberdade de cantar sem ter que cumprir exigências, e sim deixando a voz soar como eu entendia ao invés de pensar meu instrumento só para cumprir com o que esperavam.
7)Olhar para o futuro: o que os fãs podem esperar do álbum que está em processo de criação e que deve seguir a linha do metal melódico e sinfônico?
Acho que muito do que esperavam de The Shadow Works e eu terminei não entregando (risos). Por ser uma cantora lírica, as pessoas acham que a minha identidade no rock vai ser mais na linha de artistas que fizeram essa ponte, mas as minhas referências nem sempre eram por aí. Mas agora, nesse novo álbum, a sonoridade já tá mais fechada na idéia do metal melódico, e foi por isso que veio para as minhas mãos, porque precisava de uma cantora que desse conta do estilo que também pudesse escrever as letras e melodias.
E eu to animada com as possibilidades que vejo, porque vocalmente vem numa boa hora, o trabalho técnico que venho fazendo nos últimos anos já está mais consolidado, e é um estilo que me dá licença para explorar muita coisa, sem medo de exagerar.
8)Além da música, você já se aventurou em narração, rádio e literatura. Quais projetos fora da música você mais gosta de explorar e por quê?Eu na verdade preciso me manter focada para não sair explorando as coisas por aí, porque acho absolutamente tudo interessante.
Às vezes a cabeça entra num fluxo criativo muito intenso que eu sou atropelada por uma pilha de idéias novas, mas para materializá-las não é tão rápido, naturalmente. Eu queria me assumir escritora de vez e escrever os 3 livros que tenho na cabeça, mas também fazer graphic novels, mais teatro e me aventurar mais no audiovisual, além do sonho antigo da dublagem.
Uma das coisas planejadas para 2026 é meu curso de canto online, que venho adiando há muito tempo, mas acho que agora, com o que venho aprendendo nos últimos anos, eu vejo que talvez as coisas aconteçam na hora certa, e quem faz as idéias azedarem são mais as nossas expectativas do que o resto.
Fotos: Marcos Trojan
Entrevista Isabele Miranda